O Projetista

Jorge Wilheim

Como surgiu o projeto do Anhembi Parque, certamente uma de suas obras públicas mais conhecidas?

Foi Eduardo Moraes Dantas, engenheiro e contemporâneo meu no Mackenzie, quem me apresentou a Caio de Alcântara Machado, o “inventor” das feiras e salões que anualmente se realizavam num pavilhão provisório no parque do Ibirapuera. Eduardo, profissional corajoso, tinha se mandado para Brasília para construir algumas das grandes obras públicas da nova capital. Eu, de minha parte, o havia recomendado para empreender a construção de alguns edifícios que projetei naquela década. Assim, estabeleceu-se entre nós uma excelente relação profissional.

Caio, baseado na bem-sucedida experiência da Fenit – a Feira Nacional da Indústria Têxtil -, sonhava em construir um espaço quatro vezes maior, com aquela certeza do pioneiro, afastando ceticismo e ironias. “Um dia vai dar jacaré”, ele apostava, de bom humor. Por causa dessa frase, sua sala e sua sede acabaram ficando repletas de reproduções de jacarés em todos os formatos, materiais e posições. Eram dezenas e dezenas!

Para debater o que viria a ser o futuro pavilhão, Caio convidou Eduardo Laymert, seu companheiro na Alcântara Machado, e a mim para passarmos o carnaval de 1963 em Campos do Jordão, na casa do sogro – João Gonçalves, conhecido fabricante de cartas de baralho. Foi nessa casa branca e naqueles quatro dias de discussão constante que nasceu o que hoje conhecemos como Anhembi Parque. Ao programa inicial – um pavilhão de 60 mil metros quadrados -, propus acrescentar um centro de convenções, pois congressos e reuniões já constituíam no mundo uma atividade freqüente, interessante e motivadora de uma nova modalidade de turismo. Sugeri também que se previsse a construção de um hotel ao lado do centro de convenções.

Esboçado o programa básico, meu escritório foi contratado para dimensionar a área necessária e preparar um anteprojeto. Na realidade, Caio tinha a idéia de localizar esse conjunto num lugar preciso: “No lugar daqueles campinhos vagabundos de futebol ao longo do Tietê”, Achava que o local era bastante próximo e seria de fácil acesso no futuro. Para esse terreno, havia então o projeto de um estádio, elaborado pelo arquiteto Kalil, do Rio de Janeiro. Mas não se tratava de projeto solicitado pela prefeitura, e sim de proposta do próprio arquiteto.

Caio queria apresentar a idéia ao prefeito Prestes Maia, então nos últimos meses de mandato, pois a estratégia era convencer a prefeitura do valor que o empreendimento teria para o município e da conveniência de que ela participasse, cedendo a área. Em contrapartida, Caio se encarregaria de reunir sócios e recursos para edificar o conjunto e assumiria o ônus do projeto desde o início.

Reuni a equipe de arquitetos de meu escritório, da qual o principal membro era Miguel Juliano e Silva, e enfrentamos o desafio de apresentar um projeto, em maquete, no prazo de … dez dias! Claro que o resultado desse exercício nada teve a ver com o projeto que, depois, eu iria desenvolver .

Ele apenas comprovava que, naquele terreno, cabiam 60 mil metros quadrados destinados a exposições, mais um pavilhão que acolheria a congressos e uma alta torre que se destinaria a servir de hotel. A pequena maquete foi entregue dentro desse prazo absurdo ao cliente, mas ele decidiu não iniciar negociações com Prestes Maia, já adoentado. As negociações com o município foram retomadas e concluídas após a eleição do novo prefeito – Faria Lima.

E o que aconteceu com os campinhos de futebol?

Bem, eles preocupavam não ao Caio, mas à minha consciência de urbanista … Afinal, futebol de várzea é uma excelente forma de ocupação … da várzea. É claro que eles poderiam facilmente ser transferidos para uma localização nova, mais a montante do rio – como de fato o foram. Mas havia também razoável número de eucaliptos. No projeto de lei que autorizava a cessão do terreno para o destino específico, cuidei de inserir a obrigação de plantar duzentas árvores de porte. E lá estão elas, sombreando o estacionamento do Anhernbi.

Como foi o ato de criação, de projeto?

Caio estava impaciente e queria construir primeiro o Pavilhão de Exposições, a ser inaugurado em 1968, com o Salão do Automóvel. Mas antes era necessário montar um esquema empresarial e financeiro. Para tal, necessitava-se de um projeto suficientemente completo, a fim de que a própria idéia do conjunto atraísse sócios e financiadores para a empreitada. Trabalhamos muitos meses no partido geral e, ao mesmo tempo, buscamos resolver os problemas estruturais básicos, de modo a completar um anteprojeto que pudesse ser apresentado publicamente.

Quais eram os desafios estruturais?

Bem, cobrir 67 mil metros quadrados não é tarefa banal. .. Na época, costumava-se fazer isso com grande arcos de madeira ou aço, ou com coberturas em forma de shed, pois só projetos industriais demandavam tais espaços e vãos. Mas essas soluções eram claramente impróprias, porque ou resultavam em altura excessiva e não-aproveitada no ponto mais elevado dos arcos, ou necessitavam de um paliteiro de colunas. Em ambos os casos, tratava-se de resoluções inadequadas para um salão de exposições. Além disso, havia o desafio do próprio processo construtivo do pavilhão …

Desafio do próprio processo construtivo?

Queríamos uma estrutura metálica, provavelmente tubular, que nascesse do piso e se esgarçasse na altura dos treze metros, como uma árvore, mantendo a “copa” horizontal e constituindo uma grande “superfície” de estrutura espacial. Mas devíamos evitar a necessidade de construir um andaime provisório naqueles 67 mil metros quadrados, com altura de treze metros, pois ele talvez custasse mais que a estrutura permanente! Namorávamos com a idéia de construir a estrutura no piso, levantando a depois. Contudo, não achávamos experiência local suficiente em estruturas metálicas.

E como encontraram a solução?

Com palitos de fósforo, havíamos construído uma primeira idéia da árvore estrutural, e a mostrávamos a representantes de fornecedores. Um deles, da Alcoa, apontou estrutura semelhante, mas utilizada em fachada, num pavilhão da Exposição Mundial que se realizava em Montreal. Ficamos estupefatos: pela foto, parecia que os tubos de alumínio, para serem rebitados, eram esmagados na ponta … Era uma segunda-feira … Na sexta-feira, eu estava em Montreal, com Miguel Juliano, para examinar essa estrutura da Alcoa.

Foi a Alcoa que construiu o pavilhão?

Não. Nem o construiu, nem o projetou. Contudo, forneceu o material. No Canadá, encontramos o engenheiro Cedric Marsh, que havia calculado aquela estrutura de fachada. Discutimos o problema de São Paulo, e ele acabou sendo contratado como consultor estrutural da cobertura. Diga-se de passagem que ele já trabalhava com computadores, o que ainda não ocorria em nossa engenharia.

Mas creio que, no fundo, Marsh não acreditava na realização da obra, ou não tinha uma clara percepção do tamanho. Quando lhe propusemos que a estrutura da cobertura fosse construída no solo e levantada mediante 25 guindastes, ele concordou em fazer os cálculos, mas, cético, perguntou quem iria construí-la.

E quem a construiu?

A construção de todo o conjunto do Anhembi estava a cargo da Moraes Dantas. As estruturas metálicas, porém, ficavam por conta da Fichet Schwartz-Hautmont, a renomada firma francesa, lotada de engenheiros brasileiros de grande competência. E de grande coragem, porque para eles o desafio desse processo construtivo também representava uma novidade. O trabalho da Fichet foi impecável. Tomou-se cuidado com o vento, para evitar que a estrutura, toda pendurada nos cabos de 25 guindastes, entrasse em movimento pendular, impossível de interromper, acarretando o rompimento e queda! Por causa da previsão meteorológica, adiou-se o levantamento em uma semana …

E como foi o levantamento?

Foi em 13 de dezembro de 1969, um dia ensolarado. Os trabalhadores estavam distribuídos pelos guindastes, e um palco foi montado, armado de microfone, megafone e … um pequeno sanitário próximo, pois nosso consultor canadense – que era recém-chegado e a quem havíamos levado para um sobrevôo de helicóptero sobre o imenso canteiro de “sua” obra – precisou se aliviar do súbito nervosismo que o acometeu. Devia estar matutando: “Não é que esses malditos brasileiros executaram o cálculo?!”

Quanto tempo levou para levar esses 67 600 metros quadrados de estrutura espacial até a altura definitiva?

Umas oito horas. Mas não ininterruptas. Quando a estrutura já estava bem acima de nossos olhos, subindo sempre nivelada por teodolito para evitar deformações, o canadense pirou! Desandou a correr debaixo, gritando: “It will collapse! lt will collapse! … ” Fomos atrás dele e o tranqüilizamos.

Nós nos oferecemos para interromper o levantamento e levá-lo ao escritório da Fichet, a fim de que verificasse o cálculo e o projetos, só retomando a obra com sua autorização. Isso o acalmou, e horas depois, com mais umas voltas de manivela nos guindastes, a estrutura chegou à altura definitiva.

Nos dias seguintes, levantaram-se os pilares de aço, que jaziam à espera. Posteriormente, sobrepuseram-se os lanternins para iluminação interna, a 45 graus da estrutura principal. Eles ficaram voltados para o sul, impedindo a entrada direta de raios solares e criando um efeito bonito: dependendo da posição do visitante, a cobertura parece ou totalmente aberta, ou totalmente fechada.

Esses efeitos foram também completados com os eficientes aparelhos de iluminação criados por Lívio Levi: os satélites esféricos que contêm luz e som e, externamente, a iluminação do estacionamento, destinada a girar para alumiar as árvores quando elas chegassem ao porte definitivo.

O dia do levantamento deve ter sido muito emocionante!

Não só para a equipe de arquitetos, mas também para Caio Alcântara Machado, que só quando a estrutura ultrapassou a altura de seus olhos pôde perceber a real dimensão do que havia encomendado! Como sói acontecer com muitos clientes, ele não era obrigado a ter imaginação espacial, a imaginar de fato o espaço que o arquiteto propunha. Mas, mesmo para nós, arquitetos, foi uma emoção ver aquela estrutura se transformar tão rápido em volume, em espaço interior – pois, nas obras que não são pré-fabricadas, esse fenômeno se realiza apenas aos poucos. No Anhembi, em oito horas tirávamos a prova do acerto do espaço criado!

Ao sair do canteiro da obra, já bem longe, o motorista de táxi me perguntou: “O que será aquela nuvem brilhante pros lados da Ponte Grande?” Era a estrutura de alumínio, suspensa em guindastes, aguardando o suporte das colunas, ao pôr-do-sol. ..

Havia outros exemplos de estruturas tão grandes levantadas do solo?

Nem havia, nem há … Até hoje, o Pavilhão de Exposições do Anhembi constitui a maior estrutura metálica construída no solo e levantada numa só peça em poucas horas! Às vezes, fico entristecido em notar quão pouco a engenharia e a arquitetura brasileiras valorizam suas próprias obras. Tampouco entendo por que o Anhembi Parque, mediante tombamento, não foi preservado em sua integridade de projeto, evitando-se algumas alterações absurdas que, entre outras coisas, destruíram boa parte do projeto paisagístico de Burle Marx.

Quais as alterações que poderiam ter sido evitadas?

Na frente do pavilhão, estava projetada uma grande praça, com um belo piso, separado do Palácio das Convenções e do hotel por um rebuscado espelho de água enriquecido por plantas aquáticas. Nessa praça, para aumentar o espaço expositivo, construiu-se um acréscimo que desfigura todo o volume do pavilhão. Espero que um dia ele venha a ser desmontado e que novas áreas de exposição, bem-vindas, sejam construídas alhures – por exemplo, em áreas do Campo de Marte, defronte do parque …

Outra alteração, talvez causada pelos muitos anos em que a obra do hotel ficou interrompida, foi terem colocado a administração do Anhernbi nas áreas que se destinavam a espaços rentáveis. No projeto original, previa-se ao lado do hotel um pequeno edifício destinado a atividades administrativas, fossem as próprias, fossem os escritórios temporários dos responsáveis por exposições ou convenções. Também creio ter sido um erro a prefeitura alienar a estrutura do hotel e da área em frente para a Fiesp, que durante uma década não fez nada ali.

Hoje, com o grande interesse em operar um hotel naquela região, poderiam concluir o projeto original, embora com alterações técnicas e com aumento do número de quartos. A ansiedade em ampliar a superfície rentável também levou ao fechamento da laje que, ao lado da grande rua coberta, daria acesso ao hotel e propiciaria uma bonita entrada para o Palácio das Convenções. Nesse adro, no qual podem entrar ônibus de turismo, havia uma grande gaiola de beija-flores. Sem dúvida, era um acesso mais adequado que o atual. Contudo, acho que a qualidade original ainda pode ser reconquistada …

Mas as obras precisam se adequar a circunstâncias novas …

Com certeza. Só que as alterações devem ser feitas com cuidado, com critério, sempre que possível consultando o arquiteto responsável pelo projeto original, você não acha?

E como foi o projeto e a construção do Palácio das Convenções?

Em 1963, em Moscou, participei de um Congresso da Paz que se realizava no imenso auditório do Kremlin. Lá, aprendi uma lição importante, que nada tinha a ver com o tema do congresso.

Os discursos podem ser longos e freqüentemente enfadonhos, e, por isso, o auditório é dotado de um sistema engenhoso, destinado a acordar quem está adormecendo. A iluminação artificial vai diminuindo de forma lenta e imperceptível, para, periodicamente, voltar de modo abrupto ao nível original! Tem-se a sensação de que o teto se abriu, deixando entrar raios solares … Lição: o ser humano necessita da variação natural da luz propiciada pelas nuvens. Luz fria durante longos períodos gera sonolência e cansaço.

Esse aprendizado me serviu para fixarmos o critério e o partido adotados no Anhembi: todos os auditórios têm luz natural, só vedada nas projeções que exijam a escuridão. Até mesmo o grande auditório central possui uma enorme clarabóia, que permite alguma variação de luz no interior.

O segundo critério geral foi fugirmos das divisórias móveis, comuns em grandes salões de hotel, pois eu acreditava que, como dizem os ingleses, multipurpose is no purpose … Até porque divisórias móveis dificilmente conseguem isolar acusticamente duas salas contíguas. Preferimos criar um conjunto de salas com capacidade variada: dos 3400 lugares do grande auditório aos cem dos pequenos, passando por salas de 340 e 150. Faltou uma capacidade que, com o tempo, foi sendo solicitada – a de mil lugares, depois propiciada por esse auditório que se chama Teatro Elis Regina.

Havia desafios estruturais também nesse edifício inaugurado em 1972?

Cobrir o grande auditório, com um diâmetro de 64 metros, não era coisa banal. O calculista de todas as obras de concreto do Anhembi foi Mário Franco, engenheiro de grande sensibilidade.

Juntos, resolvemos o formato plissado da cobertura, feito um origami, e ele propôs sua “quebra” para diminuir a altura da flecha, assim como o anel de compressão que sustenta a estrutura “no ar”. Apesar de prevenidos de que a retirada cautelosa do cimbramento causaria um abaixamento considerável da estrutura, foi um corre-corre quando o pessoal da obra a viu descer até à posição definitiva garantida pela compressão do anel! …

Essa obra também sofreu com a pressa?

Obras grandes enfrentam percalços grandes. Isso porque demoram a obter financiamento, estabelecem-se cronogramas vinculados a eventos, e não ao real tempo de construção, etc.

No caso do Anhernbi, a Alcântara Machado teve de montar sucessivos esquemas para garantir o financiamento, fosse com empréstimos bancários para a empresa criada com esse fim, fosse com repasse de garantias e responsabilidades. O Palácio das Convenções foi mais uma obra executada pelo mesmo construtor a toque de caixa. Lembro-me de ter conduzido Pierre Cardin pela obra e visto o espanto dele quando notou que a parte superior ainda estava sendo concretada, enquanto lá embaixo já estavam esticando o carpete na platéia … È claro que a qualidade sofre com a pressa.

A face externa do vasto muro que encerra o grande auditório nunca recebeu o tratamento de concreto que havíamos proposto, e, embora tenham sido colocadas as belas tapeçarias de Nicola e de Douchez e uma grande escultura de Caciporé, detalhes como o corrimão de madeira da escada em caracol, por exemplo, até hoje não foram concluídos … Contudo, os espaços do palácio me parecem nobres e adequados, com linguagem simples e leitura fácil do conjunto.

Quem propôs o nome Anhembi Parque?

Foi o poeta e comunicólogo Décio Pignatari, a quem contratamos para estudar um nome que substituísse a impossível designação original: Centro lnteramericano de Feiras e Salões … Não rendia sigla nem alcunha! Mas eu achava que, embora no começo houvesse necessidade de firmar o nome e a localização do empreendimento, sua escala e suas atividades acabariam gerando uma toponímia própria.

Expus a Décio o conteúdo extremamente variável do conjunto e o estimulei a pensar nas muitas árvores que iríamos plantar. Ele nos apresentou uma lista de nomes, mas adiantou que o primeiro era seu favorito: “Um parque ao lado do Tietê, em sua denominação original – Anhembi … ” Em reunião na Alcântara Machado, entregamos a lista. Levaram um susto, mas ninguém mais conseguia se referir ao empreendimento senão pelo nome Anhembi Parque!

E como conseguiram localizá-Io no imaginário das pessoas habituadas a visitar exposições no Ibirapuera?

Hoje, o Anhembi é referência geográfica. Mas, na década de 60, era preciso conduzir os visitantes até lá. Contratamos o escritório de arquitetura Cauduro e Martino para o projeto de comunicação visual interno no parque e externo na cidade. Sua proposta foi engenhosa: repetir o nome três vezes em placas de pequena dimensão, criando um ritmo visual e uma flecha indicativa de direção viária. Recentemente, utilizaram- e as três plaquinhas para nelas escrever diferentes atividades simultâneas. Destrói-se assim o importante ritmo da repetição, diminuindo a eficácia da comunicação … Mas agora todo mundo sabe onde é o Anhembi …

Fonte: JW A obra pública de Jorge Wilheim